Ilha
Atualizado: 26 de out.

Tendo naufragado um navio próximo a uma ilha e havendo quatro pessoas nela sobrevivido – das quais um homem e três infantes –, e sendo estes em idade ainda inculta, porque só por providência se acharam salvos, criou-os o náufrago com tanto zelo, e tão cioso de que, morresse, perdurariam, que na idade de dez anos um, oito anos outro e sete o outro já conseguiam caçar, pescar e colher frutas, e ainda compor folhas e madeira por abrigo; e tudo isso com tal engenho e desdificuldade, que viu-se o náufrago tranquilo sabendo que podia dali em diante morrer, embora não quisesse isso, que seus assim havidos filhos não pereceriam. Mas sucede que era vontade de Deus que logo os deixasse e, como se fora propósito divino, assim que se viu bem-sucedido da sua missão de prepará-los, tornou ao seio da eternidade, para longa e amarga dor dos três que ficaram.
Foram assim crescendo os meninos em grande harmonia, e a força dos costumes em que os colocou seu pai lhes dava pouco motivo para briga, bem como a pouca variedade de bens e o muito espaço de que dispunham. Um pouco mais crescidos, porém, e com a virilidade dos anos vindo também a crescer o impulso de domínio, ainda mais que não lhes deu seu pai a educação da cidade, senão que, por segurança, somente a da selva, entraram de arrumar conflitos entre si, que iam crescendo em gravidade e as lutas em ferocidade. Um dia, por causa talvez de um peixe, ou de uma palavra ainda, irromperam em tal pugna, que diante do mar se espraiou outro mar de sangue, e, não fora o cansaço mesmo para os conter e separar, matar-se-iam. O amor, contudo, que sentiam um pelo outro, e a dor de tão insensata e desgraçada luta, fizeram com que odiassem odiar-se, e ajustaram que dali por diante, havendo outra divergência e ódios, o mais velho deles, que também era o mais forte, decidiria o pleito e daria a solução da lide. E assim foram vivendo em nova e reconstruída harmonia, o mais velho decidindo sempre com grande justiça, como se tivera dentro de si uma balança, com que pesava as razões contrárias.
Sucedeu um dia, no entanto, que um deles entrou em conflito com o mais velho, que de plano e prestamente decidiu em favor de si, posto que com bem fundadas e circunspetas razões. E depois sucedeu o mesmo com o outro: entrou em conflito com o irmão juiz e perdeu, aceitando a sentença por imperativo de hábito e máxime do juramento que haviam feito. E foi assim o juiz aos poucos crescendo diante dos irmãos, primeiro com justas e sensatíssimas razões, depois com razões razoáveis, depois com alguma arbitrariedade, e por fim com soberania e dominação. O hábito dos anos, mais o medo de tornar àqueles primevos conflitos, fê-los persistir ainda longo período nesse sistema, não vislumbrando solução outra melhor para que vivessem em harmonia e sem matarem-se. Mas o irmão mais velho abusou tanto da prerrogativa, e já se achava tão soberano e senhor dos outros, que era como tivesse dois escravos, que lhe davam parte do seu trabalho sem ele precisar por sua vez trabalhar, e podia dormir onde queria e ter como que a ilha inteira para si, sem consideração nenhuma pelo bem-estar dos irmãos, antes só os deixava dormir e lhes dava comida para terem forças de trabalhar.
Mas o irmão mais novo, que ainda tinha certo orgulho, herdado dos pais que deixara não se sabe em que terra ou profundeza do oceano, indignou-se de tal forma em ver-se reduzido a escravo, ainda que não fizesse muito conceito disso, que decidiu quebrar o juramento e desafiar o irmão, valendo-lhe mais a morte e o perjúrio do que ficar na condição a que se reduzira. Investiu contra o mais velho, que já por razões nenhumas, nem boas nem ruins, abriria mão da prerrogativa, e pelejaram sangrentamente, com grande assombro do irmão do meio, que de um lado torcia pelo mais novo, por ver-se liberto, e de outro tinha medo à revolução. Venceu por fim o mais novo, porque se enfraquecera o mais velho da moleza em que vivia, e só foi poupado porque no último momento interveio o do meio, segurando ao mais novo o golpe fatal.
Assim restituíram a harmonia, e um não dominou mais sobre os outros.
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Ora bem, se entre irmãos tais um houve que, tendo o monopólio da jurisdição, abusou, que dirá entre estranhos? Digo-vos que esta é uma lei: que todo privilégio de monopólio produzirá bens cada vez piores, e caros, e entrará então de produzir males, e isto para sapatos e ovos como para justiça e proteção; e estoutra: que nenhum homem se acha em posição de legislar sobre a vida e bens de outro, nem de arvorar-se em juiz supremo de propriedade que não a sua, nem de usar a força para impor o seu arbítrio, sem mediante isso tornar-se um conquistador, um usurpador ou um ladrão. O monopólio da justiça deve ser abolido, junto com o monopólio da produção de segurança, e todo aquele que se declarar possuidor de semelhante privilégio, e chamar-se estado, seja um homem ou conjunto de homens, deve ser exposto a opróbrio, e expulso da comunidade como manhoso político e capcioso sedutor de povos.
Sejamos enfim livres para associar-nos como para romper associações, para trabalhar como para reter o produto do nosso trabalho, pois a liberdade é apanágio nosso, que somos homens, e o ventre maior da paz e da prosperidade.



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